Agradecimento ao Senhor do universo que fez os céus e a terra, o mar e tudo o que eles contêm.
(Salmo 146:6)
Santa Teresa, ES — Mata Atlântica
Agosto foi o mês de maior volume desde o início do projeto: mais de mil e cem novas observações entraram no acervo.
O número de espécies cresceu menos que o de observações — trinta e uma novas —, e isso é esperado e saudável. À medida que um inventário amadurece, cada espécie inédita custa mais esforço. As que entraram agora são, em boa parte, organismos que sempre estiveram ali e só agora foram vistos.
O acervo já recebeu 9.334 identificações. Ainda assim, a maior parte das observações permanece na categoria “Precisa de Identificação”, à espera de alguém que reconheça o que está na imagem. É por isso que os identificadores ocupam, neste boletim, uma seção inteira e não uma nota de rodapé: sem eles, 5.290 fotografias seriam apenas um álbum. Quem identifica tem, aqui, muito onde ajudar.
Vale ainda uma observação sobre a composição do acervo: plantas e insetos dominam a diversidade de espécies registradas, enquanto as aves — que são o carro-chefe visual do canal — ocupam uma fatia bem mais modesta. O que se filma e o que se documenta não são a mesma coisa.
Em agosto o projeto ganhou seu décimo primeiro observador: José Alfredo Ferrari, o professor Ferrari, que administra o Sítio Canaã e conhece cada trilha desta terra há décadas. Uma observação apenas — mas nenhuma outra do mês significa tanto.
O acervo passa agora a reunir registros de três gerações da mesma família, no mesmo lugar. O professor Ferrari, que cuidou da mata. André, que a documenta. E Valentina, com cento e sessenta e quatro observações e setenta e sete espécies — entre elas, como se verá adiante, o único registro do município para uma espécie que o mundo viu trinta e duas vezes.
É uma coisa simples e antiga: olhar para o que foi criado e reconhecer de quem é a obra. As ferramentas mudaram — hoje há câmeras, aplicativos e bancos de dados —, mas o gesto é o mesmo que o Salmo descreve. A mata não pertence a nenhum de nós. Somos apenas os que estão olhando, por enquanto.
A irara é um dos carnívoros mais difíceis de ver na Mata Atlântica. Parente das lontras e dos furões, sobe em árvores com facilidade e tem predileção por mel e frutos — daí o nome de papa-mel, usado em várias regiões do Brasil. É ativa de dia, mas discreta o bastante para atravessar uma vida inteira de caminhadas sem ser notada. Registrá-la é quase sempre obra de uma câmera paciente.
A União Internacional para a Conservação da Natureza classifica a espécie como pouco preocupante, e é justamente aí que mora o mal-entendido. A categoria não significa que a espécie esteja bem: significa apenas que ainda há indivíduos em número suficiente para não acionar o alarme. A tendência populacional é de queda lenta e contínua.
As ameaças são as de sempre, e todas humanas — atropelamentos em estradas, contato com animais domésticos que traz competição e doenças, queimadas em canaviais, e o conflito com quem cria aves ou abelhas e enxerga na irara um inimigo. A subespécie E. b. senex já consta como vulnerável, e no Rio Grande do Sul a espécie inteira aparece como vulnerável na lista estadual, embora figure como pouco preocupante em São Paulo e no Paraná.
É por isso que registros como este importam. Uma irara fotografada num remanescente de mais de trinta hectares de Mata Atlântica não é apenas uma imagem bonita: é um dado, com data e coordenada, disponível a quem estuda a distribuição da espécie. Espécies que ainda não estão ameaçadas são exatamente as que mais se beneficiam de serem acompanhadas antes que estejam.
Fontes: Lista Vermelha da UICN e listas estaduais de espécies ameaçadas.
Ver observação no iNaturalist →
Endêmico da Mata Atlântica e classificado como Quase Ameaçado, o macaco-prego-preto é uma das espécies mais frequentes do acervo, com noventa e quatro observações acumuladas. Aqui a notícia não é o encontro raro, e sim o contrário: um primata de mata contínua que permanece, ano após ano, num remanescente de mais de trinta hectares de vegetação nativa.
O registro de agosto mostra dois indivíduos alimentando-se de frutos no comedouro, à luz do meio da manhã. Presença constante é, em conservação, um indicador tão eloquente quanto uma espécie nova.
Ver observação no iNaturalist →Há insetos cuja própria forma é um disfarce, e os bichos-pau são o caso extremo: corpo alongado, imobilidade durante o dia, aparência indistinguível de um graveto seco. A consequência é que quase ninguém os registra — não por serem raros, mas por serem invisíveis. Nas contagens do iNaturalist, as duas espécies abaixo aparecem entre as menos documentadas do mundo.
Metriophasma pericles soma trinta e duas observações no planeta inteiro, todas no Brasil. Duas no Espírito Santo. Uma em Santa Teresa — e é a nossa, feita por Valentina Ferrari. O único registro do município para uma espécie que o mundo viu trinta e duas vezes. Ver observação →
Tithonophasma tithonus soma cento e sessenta e sete observações no mundo, cento e sessenta e seis delas no Brasil. Ver observação →
Nenhuma das duas é rara no sentido biológico — não há estudo que afirme isso. O que os números dizem é outra coisa: são espécies que quase ninguém procura, e que só entram no conhecimento comum quando alguém aponta uma câmera para o galho certo. É por isso que o ranking de raridades do site traz um aviso permanente: ele reflete os registros existentes na plataforma, não a raridade biológica real da espécie.
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Com noventa e duas observações no acervo, o pica-pau-de-cabeça-amarela está entre as aves mais registradas do sítio. A crista amarelada e o corpo escuro salpicado tornam a espécie inconfundível mesmo à distância.
Ver observação no iNaturalist →Agosto foi também o mês em que o projeto deixou de apenas produzir dados e passou a produzir ferramentas para quem trabalha com esses dados. Foram quatro aplicativos criados em dezesseis dias, todos gratuitos, abertos a qualquer pessoa e construídos sobre a API pública do iNaturalist.
Mostra graficamente quem identifica o quê. Escolhida uma espécie, um grupo taxonômico ou um usuário, o aplicativo desenha a rede que liga quem observou a quem identificou. É uma forma de tornar visível um trabalho que costuma passar despercebido.
Abrir aplicativo →Responde a uma pergunta prática de quem vai a campo: quando aparece? Reúne as observações de uma espécie por hora do dia e por mês do ano, com mapas de distribuição.
Abrir aplicativo →Lista as observações candidatas de cada participante ao WikiConcurso Fotográfico iNaturalist Brasil 2026, separadas por categoria, já verificando licença e nível de identificação. Poupa o trabalho manual de garimpar o próprio acervo.
Abrir aplicativo →Séries anuais das métricas do iNaturalist para o Brasil inteiro: observações, espécies, observadores e identificadores, ano a ano. Foi com ele que levantamos, em agosto, as 1.956 espécies que aguardam identificação no país e podem ser resolvidas por especialistas.
Abrir aplicativo →Os aplicativos ficam em repouso quando não estão em uso. O primeiro acesso pode levar algumas dezenas de segundos para carregar — não é falha, é apenas a instância acordando.
A câmera do comedouro continua instalada e operante, e o teste de julho provou que a transmissão ao vivo é possível. O que não se resolveu foi torná-la contínua: a configuração atual exige um computador ligado permanentemente, o que não é sustentável.
Seguimos buscando uma solução de transmissão autônoma. Se alguém já enfrentou esse problema com câmeras IP Intelbras, escreva para nós — a experiência de quem já passou por isso vale mais do que qualquer manual.
O concurso encerra em 31 de agosto. Cada participante pode inscrever até três observações por categoria — vertebrados, artrópodes e outros organismos —, exigindo-se Nível de Pesquisa e licença CC0, CC-BY ou CC-BY-SA.
Agradecemos a Enrico Tosto e à Rede Brasileira de Naturalistas pela organização do concurso e pelo trabalho contínuo de articulação da comunidade brasileira no iNaturalist.
O trabalho de identificação é o que transforma uma fotografia em dado científico.
Menção especial a @guilandrade, que somou 440 identificações apenas em agosto e assumiu o segundo lugar do pódio. Agradecemos também a @lsueza (149) e @medina112 (124), que completam os cinco primeiros.
O Vem Pra Mata é um Estúdio de Cinema da Natureza dedicado ao registro da fauna e da flora da Mata Atlântica em Santa Teresa, no Espírito Santo. Unimos cinema, ciência cidadã e contemplação da criação.